Sem meio-termo, quem é O HOMEM CHAMADO RIVA - político endeusado e satanizado


EDUARDO GOMES
Vereador, passe aqui no (meu) gabinete amanhã, às 6 – diz o deputado ao celular.
Do outro lado da linha o vereador quer detalhes da audiência – Às 6 da tarde, deputado?
- Não; às 6 da manhã, porque às 6 da tarde tenho compromisso em Confresa.
Todos os dias, do começo da manhã até altas horas, a rotina do deputado é assim: agenda cheia. Esse ritmo é sua marca característica há quase 19 anos, quando assumiu pela primeira vez mandado na
Assembleia Legislativa de Mato Grosso e, desde então, a controla se alternando entre a presidência e a primeira secretaria.
Em Mato Grosso não é necessário perguntar quem é esse deputado. Todos os conhecem, é José Riva (nesta foto). Mais ainda: uma parte da população o tem por líder, outra o sataniza.
Também é dispensável perguntar o que acontece nesse momento com Riva. Todas as bocas dirão: está afastado da presidência da Assembleia por decisão do juiz da Vara Especializada em Ação Popular e Ação Civil Pública de Cuiabá, Luiz Bertolucci, que foi mantida por unanimidade pela Terceira Câmara Cível do Tribunal de Justiça e por liminar do ministro do Supremo Tribunal Federal, Ricardo Lewandowski; o ministro negou deferimento ao pedido de liminar contra o afastamento de Riva.
Afinal, quem é Riva, essa figura que desperta os mais diversos sentimentos?
Nos meios políticos fora da Assembleia Riva é uma espécie de liderança quase onipresente e bem acima das questões partidárias. Quem preside a Associação Mato-grossense dos Municípios (AMM) é o prefeito de Juscimeira, Chiquinho do Posto, filiado ao PSD de Riva e seu liderado. Quem dirige a União das Câmaras Municipais é a vereadora por Colíder, Ismaili Donassan, também do PSD e do grupo de Riva.
No Tribunal de Contas do Estado (TCE) três conselheiros são ex-deputados estaduais: Sérgio Ricardo, Humberto Bosaipo (afastado por improbidade pelo Superior Tribunal de Justiça) e Domingos Neto (que tinha nome parlamentar de Campos Neto); todos chegaram ao TCE com as bênçãos de Riva, que também abençoou o ex-deputado estadual Alencar Soares, que se aposentou enquanto conselheiro.
Mauro Mendes se elegeu prefeito de Cuiabá (PSB) e o candidato do PSD, Carlos Brito, teve votação pífia. Riva não se deu por vencido. Lançou seu genro João Emanuel (PSD) a presidente da Câmara e ele ganhou a disputa; João Emanuel chegou à Câmara com 5.824 votos – o mais votado - sendo que na eleição anterior não foi além de modesta suplência no PP com 2.320 votos. Detalhe: quando não passou de suplente João Emanuel não era genro de Riva.
Riva não admite, mas controla boa parte do governo, dos cargos mais humildes ao secretariado. Além disso, o governador peemedebista Silval Barbosa costuma rezar por sua cartilha desde os tempos em que foi deputado pelo PTB e PMDB; em parte de seus dois mandatos consecutivos Silval compartilhou o poder na Mesa Diretora da Assembleia com Riva.
O deputado Riva responde a muitas ações; não se sabe ao certo quantas, mas 100 é a referência. O Ministério Público Estadual (MPE) o acusa por improbidade administrativa, formação de quadrilha e outros crimes. Promotores dizem que o deputado teria desviado mais de R$ 60 milhões dos cofres públicos.
Apesar do volume de ações no Cível, Riva até agora se livrou de todas, menos uma, e sempre jura inocência. A única que o condenou foi por suposto desvio de R$ 2,6 milhões numa transação feita há mais de 12 anos com a empresa Sereia Publicidade. O deputado insiste que teve o direito de defesa cerceado e alega que o TCE reconheceu por meio de auditoria solicitada pelo Ministério Público Estadual que a Sereia prestou os serviços contratados à Assembleia. A ação que o condenou também puniu de igual modo Humberto Bosaipo, que compartilhava com ele a gestão da Mesa Diretora.
ALTO E BAIXOS
curtasJosé Geraldo Riva é um capixaba que acompanhando a família foi ainda criança em busca de dias melhores no Paraná. Em 1979, com o diploma de técnico em Contabilidade debaixo dos braços, mudou-se para Juara, município na calha do rio Arinos e que dava seus primeiros passos. A profissão era conhecida como guarda-livros. Riva se orgulha dela e conta que sua família era muito pobre. Seu pai, Dauri Riva, reuniu os filhos e sem alternativa pediu que eles escolhessem um para continuar os estudos, porque não poderia pagar escola para todos. A decisão dos irmãos foi unânime: “Vai o Zezé, que é mais ‘danado’”. Habilidoso e considerado ‘letrado’ para a época, ganhou a confiança da população e três anos depois de desembarcar naquela cidade se elegeu prefeito pelo nanico PMN.
LEGENDA: Riva e no sentido contrário ao relógio o senador e então governador Blairo Maggi, o então vice e agora governador Silval Barbosa e o à época deputado estadual Dilceu Dal'Bosco
Riva assumiu a prefeitura de um lugar totalmente desconhecido até mesmo em Mato Grosso. Ele sabia que se não divulgasse Juara seu desenvolvimento seria lento e penoso. Como se fosse caixeiro-viajante, percorreu o Paraná vendendo a boa imagem de sua nova terra. A política promocional apresentou bom resultado e em pouco tempo sua cidade ganhou título de realeza: virou Rainha do Café.
No começo de 1989 o mandato de Riva na prefeitura chegou ao fim. No ano seguinte, se lançou a deputado estadual com apoio de caciques políticos, que sabiam no que daria aquela aventura. A região de Juara tinha pequeno eleitorado e sua candidatura serviria apenas para somar voto à coligação de seu PMN.
A previsão dos manda-chuva foi apenas parte do desfecho da eleição de 1990. Riva empatou em número de votos com Homero Pereira, do PRN coligado ao PMN. O desempate pela primeira suplência seria por idade. Homero é mais velho: nasceu em 25 de maio de 1955. Riva, nascido em 8 de abril de 1959, viu Homero assumir uma cadeira.
A fase política adversa de Riva se estendeu a 1992, quando disputou e perdeu a eleição para prefeito de Juara. Nem mesmo a coleção de tropeços em pouco tempo o desanimou e, em 1994, estava novamente nos palanque pedindo apoio para deputado pelo PMN. Naquele ano conseguiu chegar à Assembleia, com 8.090 votos. Começava assim sua ligação umbilical com o parlamento mato-grossense.
Em 1998 Riva foi o candidato a deputado estadual mais votado, com 29.776 votos. Repetiu essa condição em 2002, com 65.389 votos; em 2006, com 82.799 votos; e em 2010, com 93.594 votos.
Nesse longo período na Assembleia trocou de partido algumas vezes: saiu do PMN para o PSDB, deste para o PP e recentemente liderou a criação do PSD.
Plenário é território ainda estranho para Riva. Desde sua posse em janeiro de 1995, por cinco vezes presidiu e por duas foi primeiro-secretário da Assembleia. Nesse período enfrentou contratempos. Na legislatura anterior foi afastado da presidência e posteriormente teve o mandato cassado por decisão unânime do Tribunal Regional Eleitoral (TRE) por crime de compra de votos na eleição de 2006, no município de Santo Antônio de Leverger; Riva recorreu dessa decisão no Tribunal Superior Eleitoral e a reverteu. Cassado, foi candidato à reeleição em 2010 e, mesmo fora do poder, foi novamente campeão de votos ao cargo.
Riva é o deputado mais atuante e o que mais apresenta projetos e indicações. Sua liderança sobre os deputados é tamanha, que recentemente a Assembleia mudou seu regimento interno para permitir a reeleição de presidente, manobra esta que tinha endereço certo.

CÉU E INFERNO
curtasRiva é endeusado por prefeitos, vice-prefeitos, vereadores e políticos de modo geral nos municípios. Seu perfil parlamentar em algumas situações o faz administrador informal, mas com muito poder. Se uma ponte quebra, o gabinete procurado é o dele; se uma comunidade busca uma escola, seu porta-voz é ele; não importa onde nem quando a barriga dói, o que importa é saber que “o Riva” tem solução pra tudo, ou quase isso. O endeusamento abre caminho para as grandes votações e seu poder que funde e confunde Assembleia e governo.
LEGENDA: Aberto aos admiradores, Riva dança o Chorado com bailarina do conjunto Aurora do Quariterê, na Festança, em Vila Bela da Santíssima Trindade
A satanização fica por conta de grupos em Cuiabá e nasceu com o desencadeamento da operação Arca de Noé, realizada pela Polícia Federal em dezembro de 2002, na capital e outros municípios, para desbaratar um esquema de jogo do bicho, cassinos e agiotagem que era comandado pelo bicheiro e Comendador João Arcanjo Ribeiro.
Em meio a documentos apreendidos nas factorings de Arcanjo em Cuiabá, policiais encontraram cheques da Assembleia e notas promissórias daquele Legislativo avalizadas por Riva e Humberto Bosaipo.
Arcanjo era homem muito poderoso. Parte da elite brigava pelo direito de ser fotografada ao seu lado. Seus cassinos viviam abarrotados por figuras ilustres. Seu jogo do bicho tinha as extrações transmitidas pelo rádio e televisão. Suas cestas de natal eram tradicionais e aguardadas com ansiedade por magistrados, empresários, políticos e jornalistas. Seu patrimônio era quase um império. Mato Grosso se rendia ao Comendador, que tinha hábitos simples e professava sua fé em São Benedito assistindo às famosas missas das 5h.
Quando Riva chegou ao poder Arcanjo era remédio sem contra-indicação para todos, indistintamente. Pouco antes de assumir a presidência da Assembleia, Riva viu seu colega deputado Gilmar Fabris fechar a Assembleia administrativamente em protesto contra atrasos nos repasses do duodécimo. Mato Grosso atravessava período crítico. O governo não tinha pontualidade nem mesmo para quitar folha salarial; servidores estaduais e até da prefeitura de Cuiabá eram obrigados a se sujeitar à contratação de Crédito Direto ao Consumidor (CDC) como parte de triangulação de seus órgãos com bancos e eles próprios.
Os primeiros passos de Riva no poder coincidiram com um período de insegurança e da descrença generalizada. Por não ser poder arrecadador, o Legislativo precisava (e precisa) de receber duodécimo.
Sem previsão de recebimento, a Mesa Diretora emitia cheques informalmente pré-datados e duplicatas aos seus fornecedores e prestadores de serviços se viravam como podiam - o que na prática se traduzia em trocá-los nas factorings de Arcanjo.
A descoberta dos cheques e duplicatas despertou forte reação inclusive nos comensais de Arcanjo. Esse fato jogou um imaginário tridente nas mãos de Riva. Mas se analisado em sua amplitude no contexto do acontecimento não seria mais que algo rotineiro num Estado onde um bicheiro sozinho tinha tanto ou mais poder que a soma do poder de suas instituições.
Mesmo enfrentando turbulências no começo de sua trajetória na Assembleia, Riva foi o principal responsável pela construção de sua nova sede, pela regularização de sua folha salarial e pela sua modernização administrativa que pode bem ser simbolizada pelo fim da emissão de cheques e a efetivação dos pagamentos com depósitos na conta dos servidores e favorecidos.

FOTOS 1 e 3 Mário Friedlander e 2 Edson Rodrigues
FONTE: Manchete da Revista MTAqui edição de maio
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