O escândalo da relação entre o contraventor do jogo do bicho Carlinhos Cachoeira e o senadorDemóstenes Torres tem ocupado boa parte do noticiário brasileiro. Por todo lado, a pergunta é a mesma: como pode alguém ser tão hipócrita? Pode sim. E todos nós já conhecemos pelo menos um Demóstenes na vida. Aquele que aponta o dedo a qualquer um porque se julga acima de todo bem e de todo mal. O que critica e difama a vida de seu próximo. O que fala sobre ética e moral a toda hora, mas que – fora do palco público – comete as piores atrocidades.
Não sei como a psicanálise define o comportamento dos que se vestem de justos para mentir e enganar a todos. Para subir nas tribunas e, de dedo em riste, apontar defeitos e caluniar os outros. Para se travestir de cordeiro, sabendo da sua natureza de lobo. Talvez o povo tenha a melhor definição: é o “duas caras”. Ao longo da vida, eu aprendi que todo moralista, todo caluniador esconde o mistério, e talvez a dor de ser exatamente aquilo que condena nos outros. O senador Demóstenes – nome pomposo, de origem grega, que significa “a força do povo” – conjuga tudo o que nós conhecemos como falsidade, hipocrisia e cinismo. Foi ele, Demóstenes, o relator da chamada Lei da Ficha Limpa e também foi o autor do prefácio do livro editado pela Ordem dos Advogados do Brasil, em comemoração à Lei da Ficha Limpa. Diz Demóstenes, num determinado trecho do seu escrito, que há uma quantidade de bandidos abrigados na vida pública – fala dele mesmo. Mais uma vez o povo tem razão. Quem isso usa, isso cuida. Demóstenes chegou a enfrentar o presidente do Senado, José Sarney, e como paladino da moral, falou à nação sobre a ética pública. Quem poderia ir contra ele? Demóstenes é formado em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de Goiás. Concursado, chegou a ocupar o cargo de procurador-geral do Ministério Público, além de ter sido secretário de Segurança Pública no governo de Marconi Perillo, no Estado de Goiás. Como parece ser importante para muita gente, Demóstenes também integrava várias comissões no Senado Federal e chegou a ser presidente da Comissão de Constituição e Justiça.
Em março deste ano, a máscara de Demóstenes caiu quando a imprensa divulgou as gravações feitas pela Polícia Federal, nas quais o senador pede dinheiro ao bicheiro. Desde 2009, já havia relatório na Procuradoria Geral da República com denúncias sobre o caso. Há quase 300 ligações telefônicas entre o senador e o bicheiro Cachoeira. Segundo Demóstenes, as ligações são fruto de grande amizade com o “empresário”. À medida que o Brasil assiste à repercussão do caso, vê provas e evidências que se alastram pelo País e que dão conta de que Demóstenes recebeu dinheiro do contraventor e até um fogão e uma geladeira como presente de casamento. Eu penso em quantos Demóstenes ainda existem por aí, prontos a condenar e transferir seus defeitos para os outros. Benditas as novas tecnologias que permitem provas contra as calúnias e desmascaram os hipócritas!
Chega a ser melancólica a situação constrangedora de Demóstenes que sempre julgou sem piedade e hoje diz saber “o quanto foi cruel”. O caso nos faz lembrar uma passagem bíblica, na qual uma mulher é flagrada em adultério, e a lei dizia que ela deveria ser apedrejada até a morte. Jesus, com toda a sua sabedoria e liderança, disse então que o apedrejamento deveria começar por aquele que estivesse sem pecado. Como nem Ele ousou atirar pedra na mulher, todos se retiraram, a começar pelos mais velhos.
Os Demóstenes são assim. Estão sempre de dedo em riste ou com uma pedra na mão. Trazem no peito a falsa insígnia da moral que não resiste mais às câmeras escondidas nem aos grampos telefônicos.
Há Demóstenes em toda parte e em todos os tempos. Até em lugares e instituições acima de qualquer suspeita. Há Demóstenes entre nós, aqui, ao tucupi. Molière, há mais de quatro séculos, escreveu Tartufo, uma comédia que permanece atual porque retrata, ironicamente, a situação de um falso devoto. Até hoje Tartufo significa falsidade, enganação, embuste. Toda semelhança não será mera coincidência.
JADER BARBALHO*Texto originalmente publicado no Jornal Diário do Pará no dia 03 de Junho de 2012.






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