Abuso sexual: Maioria dos casos acontece dentro de casa


Já se passaram 43 anos desde o dia em que o irmão da  técnica de enfermagem E. S., 51 anos, a forçou a manter relações sexuais. Na época, E. S. tinha apenas 8 anos. Ele, o dobro da sua idade.
"Não queria, mas ele me forçou. Falei para a minha mãe que meu irmão tinha colocado o 'negócio de mijar' dele no meu 'negócio de fazer xixi', mas ela não acreditou", conta.
A mãe de E. S. não só não acreditou, como a repreendeu. "Ela esquentou uma colher no fogão e colocou na minha boca. Disse que era para eu aprender a nunca mais falar besteiras", revela a mulher, que foi vítima desta situação dos 8 aos 11 anos de idade.
Casos de estupro envolvendo parentes são comuns. O Serviço de Atenção a Pessoas em Situação de Violência Sexual (Viver), órgão da Secretaria da Segurança Pública (SSP), atende a cerca de 70 casos de violência sexual por mês desde que foi criado, em 2001. Na maioria deles, o agressor é  parente ou conhecido.
Não à toa, 73% dos casos encaminhados ao serviço são relativos a menores de 18 anos. Os 27% restantes, a adultos. Em todas as faixas etárias, o maior percentual de atendimentos é relativo a estupros.
"Pelo menos 90% das ocorrências de violência contra a criança e a mulher acontecem dentro da própria residência", afirma a pedagoga e coordenadora do serviço, Débora Cohim.
Faixa etária - Segundo ela, os casos de estupro que resultam em gravidez são minoria. "Em 56% dos casos, a violência sexual ocorre com pessoas de até 14 anos, e é muito comum com crianças. Em uma faixa etária, portanto, que muitas meninas ainda nem menstruaram", diz.
Este ano, o Viver registrou 386 casos de violência sexual. Deste total, nove resultaram em gestações decorrentes do estupro.
Foi o que aconteceu com a técnica de enfermagem citada no início desta reportagem. Aos 11 anos, um novo estupro marcou a vida de E. S. Dessa vez, o autor era um conhecido da família. Foi uma vez apenas, mas ela engravidou.
"Passei fome, dormi na rua, mas não pensei em tirar a criança. Nunca tive ódio ou raiva por ela ter nascido nessa situação. Eu amo o meu filho", conta
E. S., que não denunciou o agressor por medo. "Ele me ameaçou várias vezes".
Quando completou 4 anos, o garoto foi levado pelo pai. "Ele (o pai e agressor) falou para o  meu filho que eu era uma prostituta. Nunca fui prostituta. Sinto muito falta dele. Queria tanto ele aqui comigo", diz E. S., emocionada.
O medo é, inclusive, um dos principais problemas da Justiça para identificar e prender o criminoso.
"Além do medo dessas mulheres, temos falhas na apuração, o que dificulta o processo", afirma a coordenadora do Grupo Especial em Defesa da Mulher (Gedem) do Ministério Público, Márcia Teixeira.